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Yun Ki Lee, sócio-fundador da LBCA, concede entrevista para a Veja SP sobre os Racionais Mc’s

22 de julho de 2019  |  Por Sérgio Quintella  |   Veja SP
processo judicial envolvendo Racionais MC's ganha análise de Yun ki Lee, sócio-fundador da LBCA

Sócio-fundador da LBCA, Yun Ki Lee, concede entrevista para a “ Veja São Paulo” para analisar, em tese, possíveis desdobramentos do processo judicial que envolve a maior e mais famosa banda de rap do país, “Racionais Mc’s”.

Confira a íntegra da matéria, publicada no caderno Cidades da publicação:

Voz ativa da periferia para rasgar o verbo em questões sociais, raciais, policiais e políticas, o grupo de rap paulistano Racionais Mc’s consagrou-se como o mais importante e também longevo do gênero no Brasil. A turnê em comemoração dos trinta anos do quarteto formado por Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock começa neste sábado (20), em Florianópolis. No total, serão nove shows em oito capitais, com público total estimado em 70 000 pessoas. Em São Paulo, os autores de hits como Diário de um Detento e Negro Drama tocarão em 11 e 12 de outubro no Credicard Hall, na Marginal Pinheiros. O último dia de apresentação já está com os mais de 7 000 ingressos (que custam entre 40 e 300 reais) esgotados.

Antes disso, em setembro, Brown, a estrela da trupe, apresenta no Rock in Rio, a mais de 60 000 espectadores, seu badalado projeto-solo Boogie Naipe. Ao retratar o cotidiano do Capão Redondo, um dos bairros mais pobres e violentos da Zona Sul de São Paulo, a banda ganhou a admiração de personalidades como Caetano Veloso, Marília Mendonça e Spike Lee. No ano passado, Sobrevivendo no Inferno, álbum de 1997, que vendeu mais de 2 milhões de cópias, extrapolou o mundo da música e virou livro, incluído no rol da Unicamp como leitura obrigatória para o vestibular de 2020.

Em plena temporada de celebrações, os Racionais se veem envoltos em uma briga na Justiça que pode lhes tirar boa parte do que arrecadaram em três décadas de trabalho. Em 2018, o quarteto foi condenado em definitivo pela Justiça por “litigância de má-fé” (quando uma parte entra com processo utilizando informação falsa) contra o produtor cultural Milton Sales, de 62 anos, um dos idealizadores do grupo, nos anos 80. A ação em questão foi proposta em 2014 para que Sales fosse retirado da sociedade da empresa Comércio de Gravações, Edições, Confecções e Shows Artísticos Racionais Mc’s, responsável pela carreira da banda a partir de 1994. A firma é detentora dos direitos autorais da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

Os Racionais alegaram que o produtor sucumbiu à dependência de drogas e não era visto desde 1998. “Eles ouviram boatos de que Sales vivia na Cracolândia. Porém, em diversas diligências, jamais se conseguiu localizá-lo”, registra a acusação. Dois anos antes do início do processo, no entanto, Mano Brown esteve na favela do Moinho, próximo à Cracolândia, para um evento social em meio a uma reintegração de posse. Em um vídeo gravado no dia, e disponível no YouTube, é possível vê-lo subir em um palco improvisado justamente ao lado de Milton Sales. “Esse é o Miltão, meu mentor intelectual”, afirma Brown. Logo depois, o produtor toma o microfone e devolve a gentileza. “Não estou fazendo média para a favela, não. E eu tenho orgulho que você está hoje do meu lado”, diz Sales.

A festa serviu à defesa como prova para desmontar o argumento do grupo. Após perderem em três instâncias, os integrantes dos Racionais deverão pagar uma multa de cerca de 5 000 reais pela fraude. Em seu voto, o desembargador Cesar Ciampolini, da 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça, citou diversos termos facilmente encontrados em letras do conjunto, como “malícia” (presente em Mágico de Oz), “lealdade” (Diário de um Detento), “ética” (Jesus Chorou) e “traição” (A Vida É Desafio). “Imputaram ao réu, com enorme malícia, um desaparecimento. Quem demonstrou total desapreço por comezinhos princípios da lealdade, da eticidade, foram eles mesmos. Traíram o réu. E ainda assim fraudaram o processo, com afirmação mentirosa”, sentenciou Ciampolini.

Milton Sales terá direito não apenas ao valor da multa, mas também ao que lhe cabe na exploração da marca Racionais Mc’s entre 1994 e junho de 2018. “Passei toda a linha de pensamento que eles usam. Toda a ideia antissistema, antimídia, fui eu que apresentei. Até rádio pirata criei para tocar as músicas deles”, afirma. “Depois fui colocado para fora e nunca mais consegui falar com os quatro ao mesmo tempo para discutir a empresa. Os Racionais são como um filho, e eu nunca processaria um filho. Mas o filho deixou o pai passar fome”, diz Sales. “Hoje Mano Brown alimenta muito mal a raiz. Um dia a copa da árvore vai tombar”, filosofa.

Depois de enfrentar momentos de enormes dificuldades financeiras, o produtor cultural, que sofre de problemas de dentição, recomeçou a vida na casa da família, em Guarulhos, e atualmente apresenta o programa de hip-hop Na Batida da Rua na Rádio Brasil Atual (98,9 FM). Apesar da disputa judicial, mantém os Racionais Mc’s na programação.

Em duas raras e longas entrevistas realizadas na sede da produtora Boogie Naipe, no Capão Redondo, e em um estúdio alugado no Campo Belo, Mano Brown, ao lado dos parceiros, diz desconhecer o sumiço de Sales, como afirmou sua própria defesa à época. “Alguém mentiu, e não fomos nós. Mentir nunca é a solução, tio. Mas isso foi uma estratégia furada que nos condenou. O Miltão vivia encontrando a gente nos shows”, assume Brown. Sobre o afastamento de Sales do grupo, em 1998, alega uma história conturbada. “Era um cara enrolado, com a vida irregular, que sumia três dias e reaparecia arrogante.” A advogada Renata Vizioli, inicialmente contratada por eles mas que não está mais com o caso, não respondeu aos pedidos de entrevista.

Quando o assunto é o início da banda, a versão dos integrantes e a do ex-produtor se encontram. Por volta de 1988, Mano Brown trabalhava como officeboy em uma corretora de valores no centro. Nessa época, já ensaiava os primeiros versos ao lado de Ice Blue e costumava passar parte da hora de almoço no Largo São Bento, uma espécie de marco zero do rap paulistano. Em meio a rodas de break, Brown foi apresentado a Sales. “Ele estava procurando um tal de Marrom, mas não o encontrou e me convidou para gravar uma fita-demo”, lembra o rapper então conhecido como DC Brown ou Brown do Capão. “Ele me levou em um Fiat velho até o Copan. Chegando lá, conhecei o KL Jay e o Edi Rock, que eram da Zona Norte e formavam uma dupla.” A esperada fita-demo não saiu, e as duplas só foram se reencontrar no ano seguinte, quando Mano Brown sugeriu o nome Racionais (sem o Mc’s) a KL Jay e propôs a parceria aos atuais colegas de conjunto. “Achei esquisito na hora, mas depois topei”, afirma KL Jay. A atuação de Sales, segundo os Racionais Mc’s, começou em 1994, depois de os primeiros trabalhos terem sido lançados. “Ele chegou com um monte de ideias e nos direcionou para o pensamento político dele”, diz Brown. “Ele dizia que eu seria o Bob Marley do Brasil, e eu acreditei”, completa.

Após 21 anos da ruptura das partes, o caso está em liquidação de sentença e peritos vão analisar a movimentação financeira não só da empresa em questão, mas de outras firmas do grupo que obtiveram receitas nos últimos vinte anos. “O passo seguinte é estudar quanto a marca Racionais Mc’s custa, o que pode levar o processo a se arrastar por anos”, afirma o advogado Yun Ki Lee, especialista em direito empresarial. Estima-se que o valor que o produtor tem a receber possa chegar a 6 milhões de reais.

No dia a dia, Pedro Paulo Soares Pereira, o Mano Brown, de 49 anos, diz ser a antítese do que as pessoas pensam dele. Afirma estar muito mais calmo e menos explosivo hoje, em comparação com o início de carreira. Durante um dos ensaios para os shows dos trinta anos, na quinta (11), na Zona Sul, entre um cigarro de maconha e outro, o líder do grupo fez piadas (chegou a imitar o amigo e pagodeiro Netinho de Paula) e atuou como uma espécie de maestro dos cerca de vinte músicos presentes. Controlou as batidas da bateria e os movimentos das guitarras. Também deu uma leve bronca no colega Edi Rock, que chegou atrasado devido a compromissos da carreira-solo. “Não canta, não, deixa o pessoal da banda ouvir as batidas”, determinou Brown, que foi prontamente atendido. Após cinco horas de experimentos, ele comeu uma marmita entregue por seu filho, composta de arroz, frango e salada. Escovou os dentes e só fechou a cara para a entrevista.

Avesso à mídia desde os tempos em que era discípulo de Milton Sales, o líder do grupo recentemente impediu a exibição de sua imagem no canal a cabo Multishow, durante uma participação especial na apresentação do rapper Emicida, no festival João Rock, em Ribeirão Preto. “Eu estava em negociação com o canal para levar o Boogie Naipe para outro programa, mas não chegamos a um acordo. Foi apenas uma estratégia.” Para a turnê comemorativa, o grupo promete desengavetar canções que não são tocadas há tempos, como Pânico na Zona Sul. Outras músicas, como Mulheres Vulgares, são vetadas atualmente. Suas letras retratam uma personagem que se vende para conseguir atingir seus objetivos. “Se é para falar da menina da favela que até hoje fica grávida aos 12 anos, o senso comum nos leva a ser mais contidos”, afirma Brown.

Ele elege o primeiro governo do ex- presidente Lula como fator de transformação da “quebrada”. “As classes E e D passaram a frequentar escola particular e a ter um ou dois iPhones, um em cada quarto. A máquina de lavar e o micro-ondas também entraram na vida da dona de casa”, diz o músico, que enxerga uma perseguição contra o petista, que cumpre pena por corrupção desde abril de 2018. “Não gosto de ver o Lula preso. Está mais do que claro que tinha um time para prendê-lo e o Moro fazia parte dele”, declara, referindo-se ao vazamento de conversas privadas entre membros do Ministério Público Federal e o atual ministro da Justiça. “Um juiz não pode ser do time da acusação. O Moro não agiu como juiz, mas como um pivô que escora para o centroavante mandar a bola no ângulo. Me lembrou a dupla Edmundo e Romário. O Moro é o Edmundo, só fez o pivô.”

Envolto em polêmicas desde o início da carreira (foi detido ao menos três vezes por desacato e briga de torcida — casos que não viraram processos criminais), Mano Brown ganhou os holofotes no ano passado em um evento da candidatura de Fernando Haddad, às vésperas do segundo turno. Com microfone na mão e cara amarrada, disse com firmeza: “Se (o PT) não está conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo”. “Eu não queria falar, mas me chamaram duas vezes ao palco. Colocaram uma granada sem pino na minha mão. Me arrependi de ter falado, mas não muito. Diria 10% de arrependimento e 90% de neurose e raiva. Caetano Veloso estava do meu lado e concordou quando eu disse que perdemos a eleição.”

Nove meses depois do ocorrido, Brown afirma que a crítica ao governo tem de ser feita com o viés do respeito às instituições. “Bolsonaro não sabe nada, mas, se votaram no cara, vamos respeitar. E o presidente seguinte será o João Doria.” Enquanto discute os rumos do país, considera uma possível trégua com Milton Sales. “A gente tinha um respeito profundo por ele, como tem até hoje. Poderia haver uma conciliação, mas só se não for por medo de perder algo. Caso contrário, não quero ideia”, diz Mano Brown.

*Leia a matéria na íntegra aqui.