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Elon Musk, ESG e o ‘Diabo Encarnado’

30 de maio de 2022  |  Por Kristian Lee, Lorena Carneiro do Nascimento e Yun Ki Lee   |   Valor Econômico
Elon Musk, ESG e o ‘Diabo Encarnado’

Quem se espantou quando Elon Musk, o homem mais rico do mundo e cofundador da Tesla e SpaceX, disse no Twitter que “ESG é uma fraude” para 90 milhões de seguidores, deixou passar despercebido que, um mês antes, ele já tinha classificado o ESG como o “Devil Incarnate” (Diabo Encarnado). Embora engajado em projetos inovadores e tecnológicos, Musk vem fazendo “odes” ao ESG, no sentido modernista do termo, a de evidenciar desencantos e críticas.

O ataque de Musk ao ESG ganhou um tom mais alto quando a Tesla foi excluída do índice ESG da Standard & Poor’s (S&P 500). (1) A agência de rating justificou a saída da Tesla por possíveis falhas nas práticas Environmental, Social and Governance (ambiental, social e governança, o ESG).

Assim, as alegações de assédio e discriminação racial na fábrica da Tesla em Vermont (Califórnia, EUA) comprometeram o pilar “S” (social); a decisão de testar o piloto automático da marca, resultando em acidentes, afetou o pilar “G” (governança) e a falta de estratégia de baixo carbono da empresa não cumpriu os preceitos do pilar “E” (ambiental).

O ranking da S&P 500 deixou de fora outras empresas de destaque, como a Meta, que caiu na classificação ESG por questões de privacidade e segurança de dados, ou seja, pelo crivo dos pilares “S” e “G”.

Embora a Tesla afirme que um dos seus valores é se esforçar para ser a melhor “em todas as métricas relevantes para nossa missão de acelerar a transição mundial para energia sustentável”,(2) este ano, a companhia fez acordo com a EPA (agência de proteção ambiental norte-americana) por violação à Lei do Ar Limpo e ficou somente em 22º lugar entre os cem maiores poluidores no Toxic 100 Air Polluters Index de 2021,(3) ao passo que a Exxon Mobil – tão criticada por Musk por ser produtora de energia fóssil, enquanto a Tesla está voltada à energia limpa – ficou em 26º, portanto, melhor posicionada.

Não por acaso, recentemente, o grupo ambiental “The Green League” lançou ofensiva pela revogação da licença de
funcionamento da gigafactory da Tesla em Berlim (Alemanha), face à descoberta de que 15.000 substâncias químicas haviam vazado na oficina de pintura da instalação fabril.(4) Ora, a sustentabilidade não é um monopólio de empresas verdes.

As indústrias de petróleo e gás também podem adotar estratégias sustentáveis e implementar programas com metas ESG. Embora investimentos responsáveis evitem os combustíveis fósseis, mineração e a indústria de armas, a aura do ESG é pela perspectiva de inclusão de todas as empresas que exerçam atividades lícitas, e não de operar com exclusões inerentes. Inexiste posição imutável de “DNA ESG” e, tampouco, de “DNA não ESG”.

Registre-se, por oportuno, que Musk não é um negacionista ambiental. Tanto que, a despeito de ter declarado endosso ao Partido Republicano, não apoiou a decisão do então presidente norte-americano, Donald Trump, em 2017, de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, sendo que o país ocupa a posição de segunda economia mais poluente do mundo e, ao longo da história, têm contemporizado sobre a metas de redução de gases nocivos ao planeta.

Mas será que o ESG é mesmo a personificação do mau, como quer fazer crer o Musk? Além de ter sido classificado como o “diabo”, o ESG ainda ganhou do polêmico empreendedor o adjetivo de “encarnado”, isto é, daquilo que se tornou carne, sangue, materializou-se, tornou-se real.

Há quem diga que o profano está no mesmo patamar do divino, sendo que as lutas entre o bem ou o mal são travadas por cada um, constituindo o conflito principal da jornada humana. Não é à toa que o escritor Guimarães Rosa criou quase 100 termos para nomear o diabo, porque ele não deixa de ser um grande transgressor, como são os pilares ESG.

A insatisfação de Musk, na verdade, envolve duas polêmicas que estão crescendo no universo ESG e que podem ser, sim, o “diabo encarnado”, mas para empresas que não dão muita importância para a sustentabilidade: o desafio dos índices que mensuram a classificação ESG das companhias, uma vez que há muitas metodologias e ferramentas diferentes (frameworks), cotejando, classificando e recomendando empresas sustentáveis aos investidores, além das ações de “washing”, que mascaram as informações sobre as práticas ESG e de mitigação de riscos de diversas companhias.

As agências de classificação enfrentam o desafio de promover uma avaliação do desempenho ESG, atendendo ao crescente interesse da comunidade de investidores. Ainda não há critérios uniformes, internacionalmente padronizados e auditados, para relatar os dados ESG de centenas de milhares de empresas.

A maioria dos ratings utiliza uma lista de riscos ambientais, sociais e governança e de como as empresas gerenciam cada um deles. Os resultados dos relatórios impactam a reputação das companhias, como vem acontecendo com a Tesla.

Há pressões de lado a lado. As agências vêm pressionando as corporações a compartilharem maior número de informações, sendo que o total de organizações de rating também vem crescendo, exigindo que as empresas melhorem essa interação e dediquem mais tempo a estudar e comunicar seu modelo de negócios diante da adesão aos pilares ESG e se esse desempenho resulta em impactos sustentáveis.

Os investimentos sustentáveis, ou seja, das corporações que atendem às diretrizes do ESG, mantêm seus olhos no futuro. Tanto que uma companhia que investe em fontes limpas de energia pode contribuir, mais à frente, para mitigar as mudanças climáticas e ter retornos financeiros, com economia de energia e de recursos naturais do planeta. Essa estratégia também contribui para a melhoraria do desempenho financeiro.

À medida que evoluem as preocupações dos gestores de fundos e investidores de todas as idades com a competência das empresas diante de questões ambientais, sociais e governança, acaba aumentando a preocupação corporativa de
“autopreservação”, que pode se desdobrar nas ações de “washing”, quando marcas promovem práticas nada sustentáveis, sem maior benefício ambiental ou social, mas publicamente valem-se de afirmações em sentido reverso, alicerçadas por ferramentas de marketing.

Não ser parte da solução ESG e exagerar nas credenciais de sustentabilidade pode ser, sim, um comportamento “maligno” e “fraudulento”.

Essa falta de transparência e desvio na comunicação dos dados fornecidos por empresas busca influenciar a percepção do público sobre a origem sustentável de um produto ou serviço, dando concretude a um avanço que não é real. São inúmeros os exemplos de empresas que não possuem cadeia de suprimentos de origem sustentável, embora afirmem o contrário, em flagrante exercício de “washing”.

No combate a esse desvio de conduta, vem crescendo a vigilância do poder público, de investidores e de organizações da sociedade civil sobre essa espécie de cortina de fumaça provocada por ações de “lavagem ESG”, que trazem danos tangíveis a todos.

Essa reatividade negativa de Musk ao universo ESG é passageira ou constitui mesmo em uma ameaça real? Até o momento, parece ser tão ambígua quanto sua recente visita ao Brasil para um possível acordo entre o governo brasileiro e a sua empresa, Starlink, para disponibilizar Internet para as escolas rurais brasileiras e para monitorar a Amazônia.

Assim sendo, uma pontuação ESG mais baixa para Tesla no índice da S&P 500 apenas demonstra que, embora seja pioneira na concepção dos carros elétricos, ainda tem vulnerabilidades voltadas à sustentabilidade que precisam ser superadas.

Vale relembrar que, há pouco mais de um ano e ainda durante uma das duras fases da pandemia, a Tesla reabriu uma de suas fábricas em desconformidade com as ordens de saúde pública, ocasionando mais de 450 casos de COVID-19,(5) mostrando pouca empatia com o fator social do ESG (“S”).

Um outro episódio a rememorar é o tweet lançado por Musk, em 2018, dizendo que os trabalhadores poderiam perder suas ações caso optassem pela sindicalização,(6) transgredindo as boas práticas de governança do ESG (“G”).

Afinal, o “Diabo Encarnado” existe ou não? Que papel simbólico ocupa no universo o ESG? É paradoxal? É e não é, como diria Guimarães Rosa?(7) O ESG é a tentação para cairmos no pecado original, nos descaminhos? É o adversário a ser vencido?

O ESG tende a ser visto de várias formas, com coloração demoníaca, como quer fazer crer o Musk, ou até utópica, como veem gerações mais novas de investidores, preocupadas com investimentos responsáveis e o futuro mais sustentável para o planeta.

Talvez, a verdade mais objetiva para essa questão esteja no diagrama de “demo”, que é a palavra “medo”, que viria principalmente do setor produtivo, incluindo o Musk e seu poderoso conglomerado, diante do temor da consolidação, sem volta, dos pilares ESG.

Sobre os autores:

Kristian Lee – analista senior da Warren Brasil, conselheiro da Radio Caca e bacharel em Economics and Business
Administration e Computer Science, ambos pela Goethe Universität Frankfurt Am Main.

Lorena Carneiro do Nascimento – Sócia da Lee, Brock, Camargo Advogados, Mestrado em Direito Societário e Mercados de Capitais pela FGV-RJ e cursando MBA em Gestão de Negócios, Inovação e Empreendedorismo na FIA.

Yun Ki Lee – Sócio da Lee, Brock, Camargo Advogados, Mestre em Direito Econômico pela PUC-SP e Professor de Direito.

1. https://www.spglobal.com/spdji/en/documents/methodologies/methodology-sp-esg-index-series.pdf?utm_source=pdf_commentary1

2. https://mission-statement.com/tesla/

3. https://peri.umass.edu/toxic-100-air-polluters-index-current

4. https://california18.com/15000-chemicals-leaked-in-tesla-paint-shop-associations-call-for-clarification/4267992022/

5. https://www.businessinsider.com/tesla-factory-450-covid-19-cases-after-musk-opened-defying-rules-2021-3

6. https://www.npr.org/2022/03/03/1084366833/elon-musk-dares-united-autoworkers-to-try-to-unionize-tesla

7. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001