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Criptomoedas, ESG e o win-win

31 de maio de 2021  |  Por Silvia Bugelli, Kristian Lee, Yun Ki Lee, Ricardo Freitas  |   JOTA
Criptomoedas

A crise das criptomoedas de 2018 deixou um estigma de bolha a categorizá-las como ativos sem valor intrínseco, mas eis que, em 2020, Bitcoin atinge o seu valor máximo histórico. No início de 2021, Ethereum e outras criptomoedas vêm seguindo essa curva ascendente, batendo também seus picos históricos de preço.

A escalada do valor das criptomoedas tem se mantido e diversas instituições tradicionais de investimentos, enfim, resolveram abraçá-las em seus portfólios. Esse crescente movimento tem elevado a preocupação quanto aos impactos da popularização dos investimentos em criptomoedas no meio-ambiente, no social e na governança, os vetores do aclamado ESG.

Essas duas tendências são harmonizáveis? Criptomoedas e ESG podem chegar a um consenso?

Blockchain, a tecnologia que suporta as criptomoedas, é reconhecidamente aceito como compartilhado, participativo, transparente, seguro, igualitário e acessível. Com a progressão da computação quântica, a disseminação do blockchain tende a crescer vertiginosamente mediante sua larga adoção pelas empresas, o que, em contrassenso, pode implicar em riscos à sociedade.

Pelo lado social [Social], blockchain reforça o bem-estar e a eficiência, na medida em que aumenta a segurança cibernética e incrementa a proteção de dados ao reduzir os ataques DDoS (distributed denial of service) e dificultar ataques hackers de roubo e sequestro de dados. Também, blockchain relativiza as questões de quebra de confiança ao eliminar a necessidade de intermediários, já que permite operações diretas entre pares e em pé de igualdade (peer-to-peer). Só aí já se visualiza maior produtividade, eficiência e isonomia para toda sociedade. Por exemplo, os contratos inteligentes da rede Ethereum são capazes de definir todos termos acertados, tal como os convencionais, mas com a grande vantagem de execução automática de cláusulas via códigos.

Pelo lado de governança [Governance], as empresas podem registrar com acuracidade todo o percurso de seus produtos, resolvendo, assim, a rastreabilidade do ciclo de produção e com participação ativa dos stakeholders envolvidos.

Walmart, por exemplo, já está a se valer do blockchain para reduzir tempo e desperdícios em sua logística.

Mas é pelo lado do meio-ambiente [Environment] que as criptomoedas mais populares, como Bitcoin e Ethereum, precisam se superar. O consumo de eletricidade é deveras elevado e o custo decorrente não há como ser desconsiderado. Em novembro de 2018, o consumo anual de eletricidade do Bitcoin foi de 45.8 TWh. Ano seguinte, em novembro de 2019, subiu para 73.1 TWh, quase 60%, que é equiparável ao consumo de países como República Checa ou Bélgica. Já em 2021, mesmo ainda no primeiro quadrimestre, o consumo bateu seu pico histórico de 96.5 TWh, que equivale ao consumo das Filipinas ou do Cazaquistão. Em pouco mais de 2 anos, o consumo de eletricidade pelo Bitcoin, simplesmente, dobrou.

 

Essa alta demanda de energia elétrica decorre do quase inquebrantável sistema de segurança. É que as equações criptográficas a serem decifradas pelos mineradores são extremamente difíceis.

 

Ambos, Bitcoin e Ethereum, valem-se do modelo de prova de trabalho (Proof of Work – PoW), que requer dos mineradores a resolução de complexos quebra-cabeças, cujo prêmio acaba sendo levado por quem conta com maior força computacional. Um novo modelo, denominado prova de participação (Proof of Stake – PoS), diversamente, concede o prêmio pela participação. A grande diferença é que, ao passo que a PoW premia apenas o minerador que resolve as complexas equações, na PoS o prêmio é conferido na proporção de moedas postas à disposição para validar as transações, razão pela qual tais participantes são chamadas de validadoras.

O rápido progresso já revelou que a PoW tem se mostrado não somente prejudicial ao meio-ambiente, mas também ineficiente, de modo que a adoção da PoW pela maioria das moedas é pouco provável, uma vez que os custos de manutenção crescem de forma exponencial quanto maior o número de usuários e de mineradores. Por consequência, a eletricidade requerida para resolver questões equacionais pode sequer ser suficiente, o que poria em xeque o próprio sistema de criptomoedas.

O emergir da PoS vem nesse sentido, de solucionar a questão de consumo de eletricidade, em que o volume de investimentos passa a crescer proporcional e diretamente ao incremento do número de usuários e de validadores. Nesse sentido, o Ethereum, a segunda maior criptomoeda, já deu o passo adiante de mudar o modelo de validação das operações de prova de trabalho para prova de participação (PoW è PoS). Vitalik Buterin, o criador do Ethereum, quando do anúncio da versão 2.0, o ETH 2.0, declarou que o consumo de energia cairá para apenas 1% do atual, meramente com a substituição da PoW pela PoS.

Dos 3 valores do ESG, desde o nascedouro, as criptomoedas satisfazem plenamente 2 deles, o Social e o Governance. E com a implementação da PoS no lugar da PoW, capitaneada pelo novo ETH 2.0, que tem tudo para ser bem sucedido, certamente, o valor Environment também será atendido com a adesão maciça das demais criptomoedas.

Muito além de teorias e posições pessoais, a certeza do encontro das criptomoedas com o ESG vem da própria natureza e lógica delas, já que sua sobrevivência, consolidação e expansão requerem que sejam mantidos os pilares de compartilhamento, participação, transparência, segurança, igualdade e custo acessível. No modo all-or-nothing, ou se tem resolvida a questão de alto consumo de eletricidade ou se tem o colapso do próprio mundo das criptomoedas.

Basta por de lado os preconceitos relativos a criptomoedas, os bias, para visualizar sua harmonia com os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável lançados pela ONU. Mais ainda, também, com a realização das garantias fundamentais da Declaração Universal do Direitos Humanos para a concretização do bem-estar de todos, o que, em fecho reflexivo, representa o próprio prestígio da dignidade humana de cada um e da comunidade, respectivamente, a finalidade e o fundamento maiores de qualquer sociedade civilizada. Quiçá essa aura seja o valor intrínseco disruptivo da criptomoeda, que tanto atrai adeptos, e não somente aquele depurado de equações matemáticas.

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