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Dia do Refugiado – LBCA entrevista a colaboradora Price Winfred Nalutaaya, refugiada e ativista de gênero

18 de junho de 2021  |  Por da Redação
LBCA entrevista a colaboradora refugiada e ativista de gênero

“Em primeiro lugar, os refugiados precisam de proteção”

Price Price Winfred Nalutaaya

Nascida na cidade Kampala, capital de Uganda, Price Winfred Nalutaaya , levava uma vida tranquila, onde morava com a família, estudava e trabalhava. Lá, ela convivia com 21 irmãos do mesmo pai e mesma mãe, o senhor Mugezi Emmanuel e a senhora Angelina Mugezi. A filha de Price tem o nome da avó, Angelina Keremy. Em 2013, sua vida sofreu uma reviravolta e ela teve de migrar para o Brasil para fugir de uma ameaça de morte. Desde fevereiro de 2020 trabalha na LBCA, estuda Direito n Faculdade Zumbi dos Palmares e se naturalizou brasileira.

1. Onde você estudou e como era essa rotina?

Cursei os internatos na capital, onde fiz a escola primária, secundária até a universidade de economia. Gostava de jogar netball na escola e costumava participar de torneios. O netball é uma herança da colonização inglesa e lembra o basquete. É jogado principalmente por mulheres e cada equipe tem sete jogadoras e o objetivo é cestar a bola no campo adversário. As jogadoras não podem andar com a bola, mas girar sobre um pé (pivô) antes de distribuir a bola.

2. Muitos ungandenses migram para outros países?

Sim, em Uganda temos muitos refugiados, mas infelizmente esses não são refugiados que foram premidos por questões econômicas ou ambientais.Como o governo é supostamente corrupto e extremamente desumano, é montado um esquema de falso refúgio. Sinceramente falando, essas pessoas não estão enfrentando nenhuma perseguição , mas estão sendo contratadas e usadas para fins comerciais, criando um falso refúgio com os países vizinhos.

3.Quando ainda estudante, você imaginava que um dia precisaria buscar refúgio fora de seu país?

Não, nunca pensei na vida que algum dia seria uma refugiada, porque nem sabia que ele existia até que me descobri vítima das circunstâncias, depois de atuar em uma organização contra mutilação genital e ter sido ameaçada de morte.

4.Como foi a angústia ao decidir deixar seu país?

Foi difícil, mas era a única maneira de sobreviver, mas foi desanimador deixar para trás minha filha, uma menina de 4 anos com meus pais, em pânico, correndo para salvar minha vida . Foi o momento mais doloroso da minha vida. Os refugiados precisam ser protegidos. É isso o que precisam em primeiro lugar – proteção e acessibilidade aos serviços sociais.

5.Como você consegui o status de refugiada no Brasil?

Fui reconhecida como refugiada no Brasil após a solicitação de asilo como primeiro passo através do CONARE JUSTIÇA, com a ajuda da Cáritas. Fiz várias entrevistas e finalmente meu pedido foi atendido. Então o UNHRC( United Nations Human Rights Council), através do Conare Justiça-Brasil SP agora me reconhece como refugiada, com todos os direitos.

6. Na sua percepção, como os brasileiros veem os refugiados?

A imagem, principalmente de africanos, é um pouco negativa. Eu nunca tinha estado com pessoas de países diferentes e não gostei no início, pois tínhamos culturas diferentes e era muito engraçado. Eu, como uma pessoa nascida em um país de cultura e normas diferentes, não estava acostumada a interagir com estranhos. Não gostei da experiência no começo, mas com o passar do tempo acabei fazendo amizade. Os brasileiros tratam os outros como são tratados.

7. Por que você escolheu o Brasil para se refugiar?

Escolhi o Brasil porque é um país mais receptivo do que qualquer outro e os brasileiros com quem estivemos em Uganda foram receptivos e gentis e, o mais importante de tudo, eles são cristãos.

8. Qual o maior desafio que você enfrentou no Brasil ?

O maior desafio que enfrentei – e ainda enfrento – é o idioma. O português é tão difícil para mim que me pergunto por quê? Embora seja uma língua fascinante, é tão legal quando alguém está falando.

9.Do que você sente mais falta ?

O que mais sinto falta é estar com minha família, mas, novamente, seria pior se eu morresse! Então a distância entre nós não é tão grande comparada a perder uma vida se eu não tivesse entrado no Brasil.

10. Que história mais te tocou em relação à escravidão no Brasil?

A história que realmente me tocou foi de Luiz Gama, o advogado dos escravos, que aprendi na escola, porque quando menino ele foi vendido como escravo para pagar a dívida de seu pai, que era português. Luíz Gama era filho de uma africana liberta e em São Paulo foi um advogado autodidata , lutou pela sua liberdade e de mais de 500 escravos.

11. Você pensa em retornar para Uganda?

Sim, estou pensando em voltar para casa não porque quero, mas sou forçada devido a sérios problemas que toda a minha família enfrenta. Meu primo Kyagulanyi Robert concorreu à presidência da República de Uganda contestando o antigo ditador Museveni, que virou-se contra todo o reino. A maioria dos meus irmãos fugiu do país e meu pai, estando velho demais, está muito doente. Eles deixaram meu pai nas mãos dos trabalhadores que cuidam das fazendas do meu pai. Minha mãe está sofrendo de derrame e por isso mesmo, devo viajar de volta para casa por um período. Vou cuidar dos meus pais.

 

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